CRONICA E ARTE CNPJ nº 21.896.431/0001-58 NIRE: 35-8-1391912-5 email
cronicaearte@cronicaearte.com.br Rua São João, 869, 14882-010 Jaboticabal SP
MR. MERCEDES: O MAL COTIDIANO E O SILÊNCIO
DAS RUAS
Mentore Conti Mtb 0080415 SP foto frames da série
Jaboticabal, 20 de março de 2026
A série Mr.
Mercedes, baseada
na obra de Stephen
King, propõe um
mergulho
inquietante no
universo do crime
psicológico,
afastando-se do
terror sobrenatural tradicional do autor para explorar a
banalidade do mal em ambientes comuns. Desenvolvida
por David E. Kelley, a produção se destaca por sua
abordagem intimista, ritmo gradual e forte construção de
personagens.
Há algo profundamente perturbador quando o terror
abandona o extraordinário e passa a habitar o cotidiano.
Mr. Mercedes trabalha exatamente nesse território —
aquele onde o medo não vem de criaturas impossíveis,
mas daquilo que está ao alcance dos olhos, silencioso,
quase invisível. É o horror que não anuncia sua chegada,
que não se veste de sombras, mas de rotina.
Ao adaptar a
obra de Stephen
King, a série
opta por um
caminho menos
espetacular e
mais corrosivo.
Aqui, não há
espaço para o
sobrenatural. O
que existe é o
desconforto
crescente diante de um mal que se infiltra no tecido social
com naturalidade assustadora. Trata-se de uma escolha
estética e narrativa que aproxima o espectador da história
de forma quase íntima — como se o perigo estivesse
logo ali, ao dobrar da esquina.
O eixo central da narrativa gira em torno do conceito de
mal cotidiano. Não há glamour, não há grandiosidade. O
que se vê é a banalização da violência, tratada não como
espetáculo, mas como consequência de rupturas internas
e sociais. A série toca, ainda que sem didatismo, em
temas como isolamento, frustração e fragilidade
emocional — elementos que, quando negligenciados,
podem se transformar em forças destrutivas.
A construção psicológica dos personagens é, talvez, o
ponto mais sólido da obra. O protagonista não é um herói
tradicional. Ele carrega falhas, vícios, cansaço — marcas
de uma vida que já enfrentou mais derrotas do que
vitórias. Essa humanidade imperfeita cria uma
identificação imediata com o público. Já o antagonista
não é apresentado como um monstro desde o início. Pelo
contrário: sua construção é gradual, quase clínica. O
espectador acompanha sua mente em funcionamento, o
que torna tudo ainda mais desconcertante.
Visualmente, a série aposta em uma fotografia de caráter
naturalista. Predominam tons frios, cinzentos, que
reforçam a sensação de apatia e vazio emocional. A
iluminação raramente é dramática no sentido clássico; ela
busca o realismo, o cotidiano, como se cada cena
pudesse estar acontecendo na
casa ao lado. Os
enquadramentos são, muitas
vezes, distantes,
observacionais — como se o
espectador fosse uma
testemunha silenciosa, incapaz
de interferir nos
acontecimentos.
Esse distanciamento visual
dialoga diretamente com o
tema central da série: a
incapacidade de perceber o
perigo quando ele não se
apresenta de forma evidente.
Não há sustos fáceis, não há
trilha sonora manipuladora. O desconforto nasce da
espera, da tensão que se acumula lentamente, quase
imperceptível.
O ritmo narrativo, por sua vez, pode ser descrito como
deliberadamente lento. Em tempos de consumo
acelerado de conteúdo, Mr. Mercedes se permite respirar.
Cada cena tem peso, cada silêncio carrega significado.
Essa escolha pode afastar parte do público, mas é
justamente nela que reside a força da série. A tensão não
explode — ela se infiltra.
O trabalho do elenco
acompanha essa
proposta estética com
precisão. Brendan
Gleeson entrega um
protagonista contido,
marcado pela
introspecção e pela
melancolia. Sua
atuação evita
excessos, privilegiando
nuances e pequenos gestos. Já Harry Treadaway
constrói um antagonista inquietante justamente por sua
aparente normalidade. Não há caricatura — há silêncio,
olhar, pausa. E isso é muito mais perturbador.
A série também merece destaque por sua recusa em
simplificar conflitos. Não há respostas fáceis, não há
explicações fechadas. O mal, aqui, não é um enigma a
ser resolvido, mas uma presença a ser compreendida —
ainda que nunca completamente.
No fim, Mr. Mercedes é menos sobre crime e mais sobre
percepção. Sobre aquilo que escolhemos ignorar. Sobre
os sinais que passam despercebidos. E, sobretudo, sobre
o desconforto de reconhecer que o extraordinário talvez
não seja necessário para que o horror exista.
Porque, às vezes, o mais assustador não é o que vem de
fora — mas aquilo que sempre esteve por perto,
esperando para ser notado.
Ficha Técnica
Título original: Mr. Mercedes
Baseado na obra de: Stephen King
Desenvolvimento: David E. Kelley
Produtores executivos: David E. Kelley, Stephen King,
Jack Bender, Marty Bowen, Wyck Godfrey, Shane Elrod
Estúdios: Audience Network, Sonar Entertainment,
Temple Hill Entertainment
Gênero: Drama, suspense psicológico, crime
País de origem: Estados Unidos
Idioma: Inglês
Temporadas: 3
Episódios: 30
Exibição: 2017–2019
Elenco: Brendan Gleeson, Harry Treadaway, Jharrel
Jerome, Holland Taylor
Em catálogo na Netflix
Para facilitar a leitura use o celulr na hotizontal
RIETI FILMS
Artigos e resenhas
leia a continuação do artigo depois da publicidade