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RIO VERMELHO: O SANGUE INVISÍVEL DAS
FRONTEIRAS E O ECO DO IMPERIALISMO
Mentore Conti Mtb 0080415 SP fotos internet
dominio público
Jaboticabal, 1de julho de 2026
Lançado em
1948 e dirigido
pelo mestre
Howard Hawks,
Rio Vermelho
(Red River) é
amplamente
celebrado como
uma das maiores obras-primas do cinema de
faroeste. O filme é famoso por consolidar a
transição de John Wayne de herói unidimensional
para um ator de densidade psicológica complexa,
interpretando o implacável fazendeiro Thomas
Dunson.
No entanto, por trás da grandiosa narrativa épica
sobre a abertura da primeira grande rota de gado
do Texas para o Kansas (a trilha Chisholm), pulsa
uma camada ideológica profunda e brutal. Ao
analisarmos o início da jornada de Dunson — e a
forma como a figuração e os personagens
secundários reagem às terras que ocupam —,
deparamo-nos com a crua mentalidade do pioneiro
norte-americano, um reflexo histórico que projeta
suas sombras até a política externa
contemporânea dos Estados Unidos.
O "Direito" de Tomar: O Destino Manifesto na
Prática
Logo no primeiro ato do filme, Thomas Dunson
decide abandonar a caravana oficial de pioneiros
para seguir rumo ao sul, cruzando o Rio Vermelho
em direção ao Texas. Ao encontrar uma terra vasta
e fértil, ele simplesmente finca sua marca no chão
e declara que tudo aquilo agora o pertence.
Quando alertado por um funcionário mexicano de
que aquelas terras já possuíam um dono legítimo
— um latifundiário com títulos concedidos pelo Rei
da Espanha —, a resposta de Dunson e a atitude
dos homens que o cercam sintetizam o cerne da
violência colonialista: o desdém absoluto pela
legalidade ou
soberania
alheia. Para o
pioneiro, a terra
pertence a
quem tem a
força para
tomá-la e a capacidade de torná-la "produtiva".
Sem dar spoilers sobre o desenrolar das relações
entre os personagens principais, o comportamento
da figuração e dos capatazes ao longo dessa
introdução naturaliza o massacre e o esbulho das
populações locais (sejam elas nativas ou
mexicanas). O filme ilustra, com a crueza típica da
época, como qualquer resistência legítima
daqueles que defendiam suas casas era
prontamente rotulada como "bandidagem" ou
"selvageria", justificando o uso de violência letal em
nome do progresso.
Essa postura era sustentada pela doutrina do
Destino Manifesto — a crença quase mística de
que os colonos anglo-saxões eram escolhidos por
Deus para expandir seus domínios da costa leste à
costa oeste do
continente,
independentemente de
quem já vivesse ali.
Do Velho Oeste ao
Século XXI: A
Sobrevivência do
Imperialismo
A mentalidade retratada
em Rio Vermelho não
ficou enterrada nas areias
do Texas do século XIX;
ela se metamorfoseou e
continua operando como
o motor do imperialismo
norte-americano
contemporâneo.
A mesma lógica que permitia a Thomas Dunson
ignorar fronteiras estabelecidas e decretar que sua
vontade estava acima dos direitos dos povos locais
é visível nas intervenções geopolíticas modernas.
Quando observamos o histórico recente de
intervenções militares, a
imposição de sanções
econômicas unilaterais e
a ocupação de territórios
estratégicos sob o
pretexto de "levar a
democracia" ou "garantir
a segurança global", o
que vemos é o pioneiro
de Howard Hawks
vestindo roupas de alta
tecnologia.
A narrativa substituiu a
"expansão da fronteira" pela "defesa dos interesses
nacionais" ou "segurança energética". O direito de
posse baseado na força bruta, justificado por uma
suposta superioridade moral ou civilizatória,
permanece intacto. Assim como em 1850 a terra
mexicana invadida era vista como um "vazio" a ser
preenchido pela eficiência americana, hoje, nações
soberanas que não se alinham à cartilha de
Washington são tratadas como territórios a serem
corrigidos ou moldados.
Rio Vermelho, portanto, transcende o status de
mero entretenimento de época. Ele funciona como
um documento cultural involuntário que expõe o
DNA expansionista de uma nação. Ao assistirmos
ao filme hoje, a verdadeira tensão não está apenas
na poeira das grandes manadas de gado, mas em
perceber como a crueldade daqueles primeiros
passos na fronteira pavimentou a estrada para a
hegemonia global atual.
Ficha Técnica do Filme
Atributo
Detalhes
Título Original
Red River
Título no Brasil
Rio Vermelho
Ano de Lançamento
1948
Direção
Howard Hawks (e Arthur Rosson na
direção de segunda unidade)
Roteiro
Borden Chase e Charles Schnee (Baseado
na história The Chisholm Trail de Borden Chase)
Gênero
Western (Faroeste) / Drama Épico
Duração
133 minutos (Versão de Cinema) | 127
minutos (Versão do Diretor)
Distribuição
United Artists
Elenco Principal
John Wayne (Thomas Dunson)
Montgomery Clift (Matthew 'Matt' Garth)
Walter Brennan (Nadine Groot)
Joanne Dru (Tess Millay)
John Ireland (Cherry Valance)
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