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KEOMA (1976): O WESTERN QUE AINDA NOS ENCARA Mentore Conti Mtb 0080415 SP foto Divulgação Jaboticabal, 19 de janeiro de 2026 Lançado em 1976, Keoma surge num momento crepuscular do cinema italiano. O chamado spaghetti western já dava sinais claros de esgotamento comercial, engolido tanto pela saturação do mercado quanto pela mudança de gosto do público. Ainda assim, em meio a esse cenário de despedida, alguns filmes recusaram a obviedade e optaram por um caminho mais introspectivo, quase existencial. Keoma é um desses casos raros: um western que parece saber que o gênero está morrendo — e transforma essa consciência em força estética. Dirigido por Enzo G. Castellari e protagonizado por Franco Nero, o filme não se contenta em repetir arquétipos clássicos. Ele se afasta do western como aventura pura e o aproxima de uma fábula sombria, marcada pela solidão, pela violência estrutural e pela sensação de mundo em colapso. Mais do que contar uma história específica, Keoma cria um estado de espírito — e é justamente aí que reside sua atualidade. Mesmo sem entrar em detalhes narrativos, é impossível ignorar que Keoma trabalha com a ideia de retorno. O protagonista não chega a um território virgem ou em expansão, mas a um espaço já corroído, marcado por tensões internas e feridas abertas. Diferente dos westerns clássicos de Hollywood, que frequentemente celebravam a construção de uma nação, aqui o que se vê é a decomposição de qualquer ideal coletivo. Do ponto de vista técnico, a fotografia transforma a paisagem em extensão psicológica dos personagens. Montanhas áridas, vilas decadentes e espaços vazios reforçam a sensação de abandono. A câmera frequentemente isola o protagonista no quadro, mesmo quando cercado por outros personagens, reforçando a solidão como tema central. A trilha sonora dos irmãos De Angelis foge do épico tradicional e assume um tom quase litúrgico. As canções funcionam como comentário moral da narrativa, antecipando e julgando ações. A música não apenas acompanha o filme — ela o interpreta. A violência em Keoma não surge como espetáculo heroico, mas como sintoma de um mundo adoecido. Cada confronto carrega peso moral, afastando o filme do glamour e aproximando-o da reflexão. Em tempos de banalização da brutalidade, essa abordagem soa especialmente atual. Há ainda um elemento simbólico decisivo: o nome Keoma. Sem tradução literal consagrada, o nome soa ancestral, evocando deslocamento e errância. Ele não define uma origem, mas um percurso. Keoma não é apenas um indivíduo, mas um estado: o do homem que atravessa um mundo em ruínas sem se confundir com ele. Quase cinquenta anos após seu lançamento, Keoma permanece atual por recusar soluções fáceis. É um western sobre o fim, sobre o custo da violência e sobre a solidão ética do indivíduo diante do colapso coletivo. Um filme que não conforta — mas permanece. Ficha Técnica Título original: Keoma Ano: 1976 Direção: Enzo G. Castellari Roteiro: Enzo G. Castellari, Tito Carpi Elenco: Franco Nero, Woody Strode, William Berger, Olga Karlatos Fotografia: Enzo Barboni Trilha sonora: Guido & Maurizio De Angelis País: Itália Duração: 104 minutos Gênero: Western / Spaghetti Western O leitor encontra o filme completo no Youtube ou Pluto TV
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