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A BONDADE COMO RESISTÊNCIA: E.T. E MIRACOLO A MILANO ENTRE A AMIZADE E A UTOPIA Mentore Conti Mtb 0080415 SP foto Divulgação Jaboticabal, 12 de janeiro de 2026 Em tempos de polarização e divisões profundas, revisitar filmes que colocam a bondade e a amizade no centro de suas narrativas ganha força como um antídoto necessário. É preciso combater os erros, o radicalismo e o extremismo que marcam os dias de hoje, e obras como E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, e Miracolo a Milano,(Milagre em Milão) de Vittorio De Sica, mostram o caminho. Separados por décadas, continentes e tradições cinematográficas, ambos recorrem ao fantástico para explorar amizade, exclusão e esperança, provando que o milagre — íntimo ou coletivo — surge da capacidade humana de acolher o outro. Esses filmes constroem fábulas a partir de personagens deslocados, frágeis e aparentemente ingênuos, questionando sistemas de poder, racionalidade excessiva e injustiça social. Apostam no afeto como valor essencial e transformam a empatia em ato de resistência, algo vital diante do extremismo que ameaça a convivência humana. A amizade como refúgio em E.T. – O Extraterrestre Em E.T., Spielberg narra a saga de um pequeno alienígena abandonado na Terra após a partida de sua nave. Perdido em um subúrbio americano, ele acha abrigo na casa de Elliott, um menino solitário lidando com o vazio da separação dos pais. O laço entre eles nasce da delicadeza: medo, curiosidade e silêncios tecem uma amizade orgânica, longe de efeitos grandiosos. O roteiro aprofunda essa conexão com um vínculo físico e emocional, onde Elliott e E.T. compartilham sensações, dores e alegrias — uma metáfora da empatia absoluta, sentir o outro como extensão de si. O fantástico não afasta o público; aproxima, humanizando o alienígena mais que os adultos ao redor. À medida que o afeto cresce, o mundo adulto emerge como ameaça: cientistas e agentes governamentais, impessoais e sem rostos, encarnam um sistema controlador e invasor. O conflito reside no embate entre sensibilidade e frieza institucional, não entre espécies. O adeus final traz melancolia e lição de amadurecimento, ensinando a enfrentar perdas inevitáveis. A utopia dos excluídos em Miracolo a Milano Miracolo a Milano surge de uma Itália pós-guerra marcada pela miséria. Totò, órfão criado por uma idosa que lhe incute bondade, generosidade e solidariedade, acaba entre os pobres que ocupam um terreno baldio em Milão, formando uma comunidade de marginalizados. A narrativa inicia no neorrealismo, com pobreza retratada em tons humanos e irônicos. Mas o roteiro de Cesare Zavattini injeta o fantástico: Totò ganha poderes milagrosos de uma pomba mágica quando interesses econômicos ameaçam a expulsão. Seus milagres são modestos, aliviando sofrimentos pontuais e expondo o absurdo da desigualdade. O fantástico denuncia a realidade, não a ignora. O desfecho, com os moradores voando para fugir da opressão, evoca uma libertação poética e amarga, insinuando que a utopia talvez só exista além do mundo capitalista. Dois caminhos para o fantástico A comparação destaca usos distintos do fantástico como crítica. Spielberg tece uma fábula íntima, ancorada na infância, família e afeto pessoal — um milagre emocional e caseiro. De Sica e Zavattini forjam uma alegoria coletiva, com milagre social e político. Em E.T., crianças abraçam o fantástico, adultos o rejeitam. Em Miracolo a Milano, marginalizados o acolhem, poderosos o combatem. Em ambos, a imaginação colide com sistemas rígidos e desumanos, variando o foco: individual no primeiro, coletivo no segundo. Bondade como gesto de resistência A bondade nesses filmes não é ingenuidade, mas ética firme. Elliott e Totò, figuras simples em cenários hostis, espelham a crueldade estrutural. Sua gentileza confronta o espectador, combatendo o radicalismo com afeto. Vilões não são caricatos: em E.T., é o bureaucratismo impessoal; em Miracolo a Milano, a lógica excludente da propriedade. Nenhuma força cai pela violência — a réplica vem da solidariedade e imaginação, essenciais para erradicar extremismos atuais. Despedida, perda e esperança Os finais marcam despedidas. Em E.T., a dor da separação sinaliza o fim da infância e o ganho de maturidade emocional. Em Miracolo a Milano, a fuga coletiva rejeita um mundo injusto. Tristeza e libertação andam juntas. Esses encerramentos posicionam o cinema como arena de emoção e crítica social. Spielberg humaniza o blockbuster; De Sica e Zavattini poetizam a denúncia. Um gesto humanista em comum Apesar de diferenças culturais e estilísticas, E.T. e Miracolo a Milano compartilham o humanismo: amizade e bondade desafiam opressões. Dialogam com nossa era de radicalismo, reafirmando empatia e acolhimento como armas contra erros e extremismos. Ao apostar no fantástico, revelam verdades humanas profundas. Em dias de dureza, revisitá-los é resistência sensível. Ficha técnica — E.T. – O Extraterrestre Título original: E.T. the Extra-Terrestrial Direção: Steven Spielberg Roteiro: Melissa Mathison Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Fotografia: Allen Daviau Trilha sonora: John Williams Direção de arte: James D. Bissell Montagem: Carol Littleton Elenco principal: Henry Thomas, Drew Barrymore, Dee Wallace, Peter Coyote País: Estados Unidos Ano: 1982 Duração: 115 minutos Gênero: Ficção científica, drama, aventura Ficha técnica — Miracolo a Milano Título original: Miracolo a Milano Direção: Vittorio De Sica Roteiro: Cesare Zavattini Base literária: Totò il buono, de Cesare Zavattini Produção: Dino De Laurentiis Fotografia: Guglielmo Rotunno Trilha sonora: Alessandro Cicognini Direção de arte: Antonio Valente Montagem: Eraldo Da Roma Elenco principal: Francesco Golisano, Emma Gramatica, Guglielmo Barnabò País: Itália Ano: 1951 Duração: 96 minutos Gênero: Drama, fantasia, comédia social
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